Imagine um cenário onde o maior banco privado do Brasil, historicamente conservador e parte central do sistema financeiro tradicional, vira-se para os seus clientes e diz: “Você precisa de proteção contra o nosso próprio sistema”. Foi exatamente isso que aconteceu hoje. Em um relatório inédito e surpreendente, o Itaú Unibanco recomendou oficialmente que investidores destinem entre 1% e 3% de todo o seu património para o Bitcoin visando o ano de 2026.
Mas por que isso é relevante para quem não é especialista em mercado financeiro?
Até pouco tempo, as criptomoedas eram tratadas por grandes instituições como “dinheiro de internet” ou pura especulação. A mudança de postura do Itaú sinaliza uma validação institucional histórica. O banco não está a sugerir que você compre Bitcoin para ficar rico da noite para o dia; a recomendação é técnica e baseada num conceito chamado “Hedge” — ou seja, proteção.
O relatório destaca o Bitcoin como um ativo de “diversificação real”. Em termos simples, isso significa que o Bitcoin não segue as mesmas regras que derrubam a Bolsa de Valores ou desvalorizam a Renda Fixa quando o governo toma decisões económicas equivocadas. O banco reconheceu que, num mundo de incertezas fiscais, inflação persistente e desvalorização da moeda estatal (o Real), ter um ativo descentralizado é como ter um bote salva-vidas num navio transatlântico. Você espera não precisar usá-lo, mas é imprudente navegar sem ele.
Para o cidadão comum, a mensagem nas entrelinhas é poderosa: o sistema bancário tradicional está a admitir, ainda que discretamente, que a moeda fiduciária (o dinheiro emitido pelo governo) está a perder a sua capacidade de preservar valor a longo prazo. Enquanto o governo pode imprimir mais dinheiro e gerar inflação, o Bitcoin é matematicamente escasso e imune à interferência política.
A recomendação de alocar até 3% é uma estratégia de seguro patrimonial. Se o Brasil enfrentar uma crise severa ou o Dólar disparar, essa pequena parcela em Bitcoin tende a valorizar-se exponencialmente, compensando as perdas do restante da carteira em Reais. É a fusão do pragmatismo financeiro com a tese de liberdade económica: a melhor maneira de proteger o fruto do seu trabalho é manter uma parte dele fora do alcance da “caneta” dos burocratas.




